Imagine o desafio de alimentar cerca de 10 bilhões de pessoas até 2050 sem destruir o que resta de florestas, savanas e manguezais. Esse dilema foi o ponto de partida de um estudo internacional liderado por pesquisadores de universidades como o Imperial College London, a Universidade de Leeds e o centro alemão iDiv, em colaboração com a PREDICTS, a maior base de dados sobre biodiversidade em paisagens agrícolas.
Os resultados, publicados na revista Nature Ecology & Evolution, mostram que a resposta não cabe em uma fórmula única. Enquanto algumas regiões se saem melhor concentrando esforços na intensificação, outras pagariam um preço alto pela queda de espécies se apertassem ainda mais a mesma área de lavoura. Ao mesmo tempo, expandir fronteiras em ecossistemas pouco convertidos continua sendo, na maioria dos casos, um negócio desastroso para a fauna local.
O estudo confirmou aquilo que ecólogos vêm alertando há décadas: substituir vegetação nativa por monoculturas reduz a riqueza de espécies em até 40% e leva à chamada homogeneização biótica, quando os mesmos poucos sobreviventes am a dominar paisagens inteiras. Entre os cultivos analisados, soja e milho nos trópicos foram os mais letais para a diversidade, sobretudo quando a cobertura natural ao redor do talhão caía abaixo de 30%.
Principais perdas associadas à expansão:
Conseguir mais toneladas por hectare parece, à primeira vista, a alternativa “verde”, pois evita abrir novas áreas. No entanto, o efeito prático depende do contexto. Quando o entorno preserva boa parcela de habitat natural, aumentar o rendimento de arroz, por exemplo, pode até favorecer a presença de aves aquáticas e insetos benéficos.
Já em cenários onde a paisagem foi quase toda convertida, elevar aportes de fertilizantes e irrigação geralmente empurra as poucas espécies remanescentes para o limite da sobrevivência, além de poluir rios e solos.
Os autores também calcularam o que aconteceria se todos os produtores fechassem a chamada brecha de rendimento, isto é, atingissem o potencial máximo de produtividade. A projeção indica uma perda média de 9% na riqueza de espécies, valor modesto se comparado ao estrago de uma expansão descontrolada, mas não desprezível em regiões onde cada população conta para manter processos ecológicos essenciais.
Com vastas extensões de Cerrado e Amazônia ainda sob pressão, o país se torna peça-chave do quebra-cabeça global. Os dados sugerem que, na maioria dos municípios agrícolas brasileiros, intensificar áreas já consolidadas pode ser menos danoso do que avançar sobre remanescentes nativos. Contudo, há limites claros: sem manter corredores ecológicos e porcentuais mínimos de vegetação, mesmo lavouras de alta eficiência acabam minando a biodiversidade e a segurança hídrica no longo prazo.
Para gestores públicos, cooperativas e universidades, a mensagem é direta. Primeiro, proteger os últimos blocos contínuos de habitat é inegociável. Segundo, políticas de crédito rural precisam atrelar financiamento a metas de conservação, como manter pelo menos 30 % de cobertura natural no entorno das fazendas.
Geography and availability of natural habitat determine whether cropland intensification or expansion is more detrimental to biodiversity. 01 de maio, 2025. Ceaușu, et al.